As Línguas da Bíblia

Hebraico

            Os textos encontrados em Ugarit e nas grutas do Mar Morto (Qumrán), além de inúmeras inscrições das mais diversas épocas e lugares, tornaram-se fontes de dados importantes para que se conhecesse o mundo lingüístico cultural onde nasceram as Escrituras Sagradas do judaísmo e do cristianismo. O descobrimento pela Arqueologia de inscrições anteriores ao Exílio Babilônico permite o conhecimento das formas arcaicas da língua hebraica.

Os cananeus, povos primitivos da Palestina, falavam uma língua semelhante ao hebraico e passaram essa herança aos israelitas (cf. capítulo 2). O hebraico é conhecido como a língua de Canaã (Is 19.18) ou mais freqüentemente como judaico (Is 36.11; 2 Cr 32.18). Os primeiros israelitas começaram a falar esta língua quando chegaram a Canaã.

O alfabeto hebraico possui 22 caracteres, todos eles consoantes. Alguns representavam dois sons diferentes, dependendo de sua relação com sons próximos. Assim, o bet pode ter som de b  ou de v. De 900 a 600 a.C., a ortografia hebraica era escrita só de consoantes. A partir daí começaram a utilizar as chamadas matres lectionis para indicar as vogais longas, principalmente no final das palavras. Com o passar do tempo, começaram a marcar também as vogais breves. Entretanto, a escrita vocálica não começou a ser utilizada antes dos séculos V e VI, depois de Cristo. Com isso, evitou-se o esquecimento da pronúncia exata do texto sagrado. As vogais não são indicadas por meio de letras, mas, sim, por pontos e traços, colocados acima e abaixo das consoantes.

            A característica mais curiosa da língua hebraica e das semíticas é a composição trilítera das raízes. Da mesma raiz podem derivar verbos e substantivos com o mesmo significado. Exemplo: as três consoantes MLK formam o substantivo MeLeK (rei) ou a forma verbal MaLaK (ele reinou). Somente pelo contexto se pode obter uma dedução clara da forma utilizada. Com o acréscimo de sufixos, prefixos e infixos, compõem-se as formas que indicam tempo e pessoa: MeLaK-TeM (vós reinantes), HiMLYK (ele fez reinar) etc. Do mesmo modo, formam-se substantivos derivados como MaLKaH (rainha), MaLKuT (reino) e MaMLaKaH (soberania), entre outros.

            Os chamados tempos dos verbos perfeito e imperfeito não designam o tempo da ação, no passado, presente ou futuro, mas o caráter completo ou incompleto. A referência temporal ao passado, presente ou futuro infere-se do próprio contexto. A língua hebraica também é pobre em verdadeiros adjetivos e em formas específicas para expressar o comparativo e o superlativo. Utiliza expressões como “o santo dos santos” e “cântico dos cânticos” para indicar o santuário mais santo e o cântico mais excelente.

            A língua hebraica também tomou emprestados vários termos dos povos com os quais os israelitas entraram em contato, como, por exemplo, os egípcios, os hititas e os hurritas. Tomou emprestados numerosos termos do semítico oriental, especialmente no que se refere à administração da justiça, às instituições de governo e ao exército. Fez empréstimos também de línguas que não eram semíticas, como a língua persa. Dessa provém o termo pardes que, mediante o grego da versão LXX (Septuaginta), paradeisos, e do latim da Vulgata, paradisum, deu origem ao termo “paraíso”.

            O hebraico bíblico ou clássico sobreviveu como língua falada e escrita, principalmente na Palestina, durante a época helenística e romana, tanto que os documentos encontrados em Qumrã foram escritos na língua hebraica, idêntica à dos livros bíblicos. O hebraico pós-bíblico aparece plenamente desenvolvido na Mishná, compilação de textos jurídicos terminada no início do século III. Esse hebraico da Mishná representa um desenvolvimento da língua falada na Palestina, mais do que uma continuação da linguagem literária do Antigo Testamento. As cartas de Bar Kokba, datadas dos anos da segunda revolta judaica contra Roma (132—135), provam que o hebraico era uma língua viva nessa época.

            Ao longo da Idade Média, ao lado de composições escritas em hebraico artificioso, que já não reflete uma língua viva, encontram-se escritos em poesia e prosa de estilo elegante, comparável ao dos textos bíblicos, ainda que com evidentes influências de modelos árabes, principalmente quanto às formas métricas e à terminologia científica e filosófica. Na época moderna, os séculos XIX e XX experimentaram o renascimento da língua que, na realidade, nunca sofreu completo abandono.

            A descoberta, em 1929, dos textos de Ugarit, permitiu os estudos do marco geográfico e cultural cananeu, ao qual pertencem a língua e a literatura bíblicas. A literatura ugarítica permitiu reconhecer, por exemplo, que as partículas hebraicas be e , além do respectivo significado de “em” e “a, para”, possuem o significado de “de” ou “desde”. Assim, Isaías 59.20 deve ser traduzido por: “um redentor virá de Sião”, conforme interpretação encontrada em Romanos 11.26. Palavras hebraicas mal copiadas ou mal interpretadas pela tradução manuscrita podem ser reconstruídas, segundo sua forma e significados primitivos, graças aos textos paralelos ugaríticos. Isso permitiu uma nova versão de muitas passagens do Antigo Testamento que ofereciam grandes dificuldades de tradução.

            A descoberta mais extraordinária referente aos tempos do Novo Testamento foi os documentos do Mar Morto, em 1947, por um pastor de ovelhas. Ele encontrou jarros em algumas cavernas contendo rolos antigos de couro (pergaminhos) e vendeu-os por um preço insignificante. Os arqueólogos se interessaram pelo material e recolheram mais de 400 rolos. Eles tinham pertencido à biblioteca de uma comunidade religiosa em Qumrã, na orla do Mar Morto. Seus donos os esconderam quando o exército romano avançou contra os rebeldes judeus em 68 d.C. O calor seco da região os conservou. Estão escritos em hebraico ou aramaico e oferecem muitas informações sobre a vida religiosa judaica da época do Novo Testamento.

            Os livros do Antigo Testamento eram os favoritos da biblioteca de Qumrã. Todos estão presentes, exceto o livro de Ester. Muitas cópias mostram que o texto hebraico tradicional (existente só em cópias feitas cerca de 900 d.C., antes desta descoberta) era corrente no século I d. C., e antes. Há outros textos hebraicos entre os rolos, que apresentam comentários sobre partes do Antigo Testamento, explicando nomes antigos de pessoas e lugares. Os homens de Qumrã eram muito diferentes dos cristãos primitivos, pois eram totalmente judeus e aguardavam a vinda do Messias. O estudo de sua atitude em relação ao Antigo Testamento esclarece a maneira que Jesus e seus seguidores tratavam o mesmo.

Aramaico

            Devido à grande difusão dos arameus (que aumentou ainda mais quando os reis assírios conquistaram e deportaram grande número deles para a Assíria e para a Pérsia), a sua língua, o aramaico, passou a ser utilizada nas negociações diplomáticas e no comércio em todo o Oriente Médio, a partir de 750 a.C., aproximadamente. As inscrições aramaicas mais antigas que se conhecem datam do século IX a.C. O aramaico transformou-se na língua oficial dos impérios assírio, neobabilônico e persa. Quando os oficiais assírios do rei Senaqueribe ameaçaram Jerusalém, os homens do rei Ezequias pediram-lhe que falassem em aramaico. Os decretos dos reis persas eram escritos nessa língua. Quando o povo que vivia em Israel apresentou queixas contra os israelitas, que tinham voltado com Zorobabel, escreveu  ao rei em aramaico. Também parte do livro de Daniel foi escrita nessa língua (2Rs 18.26; Ed 7.12-28; 4.8—6.18; Dn 2.4— 7.28).

            Após o exílio na Babilônia, o aramaico começou a suplantar o hebraico na conversação cotidiana dos israelitas. Por isso, havia a preocupação em copiar as Escrituras Sagradas em hebraico, para não se esquecerem da língua escrita e falada. Depois da difusão da língua grega, por causa das conquistas de Alexandre Magno, o aramaico continuou sendo a língua mais falada. Entretanto, nos negócios oficiais passou a ocupar o segundo plano.

            A história da língua aramaica atravessou três períodos: o antigo, o médio e o recente. O antigo corresponde ao tempo do império assírio, quando o aramaico era a língua oficial. Grande parte da documentação do império persa, que foi conservada, está escrita no aramaico oficial, embora alguns escritos, como os provérbios de Ahiqar, empreguem o dialeto assírio. Os textos de Esdras mencionados acima são desse período. Outras passagens foram originalmente escritas em aramaico e depois traduzidas para o hebraico e para o grego: Jr 10.11; Dn 2.4b—7.28.

 O período médio corresponde aos séculos compreendidos entre 300 a.C. e 200 d.C. Após o império persa, o grego começou a dominar sobre o aramaico. Alguns textos encontrados em Qumrã estão escritos no aramaico desse período. As fórmulas legais citadas na Mishná e nos dois Talmudes refletem a língua aramaica. Várias inscrições encontradas em Jerusalém, em tumbas, sarcófagos, ossários e em outros objetos estão no aramaico ocidental.  Na época do Novo Testamento, o aramaico era falado pelos judeus. Há diversas frases em aramaico, como, por exemplo,  taalitha kúmi (“menina, levanta-te!”); abba  (“Pai”) e Eli, Eli lama sabachtâni (palavras de Jesus na cruz: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?”), respectivamente:  Mc 5.41; 14.36; Mt 27.46). Além de expressões como: effatha, elloi, rabouni, maranatha.

Nomes próprios e topônimos também são aramaicos: Acéldama, Gólgota, Getsêmani, Betesda. São raros os fragmentos de escritos em aramaico ocidental, entre os quais um texto de Uruk, do segundo século antes de Cristo, e um conjunto de inscrições e grafite de Assur e Hatra, correspondentes ao período parta (século II d.C.).

            O período recente estende-se até após a conquista árabe (de 200 a 900 d.C.), quando o aramaico foi dividido em dialetos. No grupo ocidental aparecem o aramaico judeu (Galileu), o cristo-palestinense e o samaritano. Documentos encontrados desse período são: os midrashes palestinos, os targums palestinos, inscrições funerárias de Jope, Bet-Shearim e Zoar e numerosas inscrições sinagogais do século III ao VI d. C. O aramaico cristo-palestinense era falado pelos judeus convertidos ao cristianismo.

Grego

            A adoção da escrita consonântica fenícia para escrever o grego produziu-se lá pelo ano 1000 a.C. Um personagem lendário chamado Kadmos introduziu a escrita fenícia na Grécia. A origem semítica da escrita grega encontra-se na semelhança de forma, valor fonético e ordem das letras em ambos os alfabetos.

            Os livros deuterocanônicos do Antigo Testamento foram escritos em grego, embora o original de alguns deles estivesse em hebraico ou aramaico, como é o caso de Ben Sirac. O Novo Testamento foi escrito em grego, embora os logia de Jesus e algumas partes fossem transmitidos primeiro em aramaico. O grego bíblico possui características especiais. Os escritores pagãos possuíam aversão à língua do Novo Testamento, distante do grego clássico. Os apologistas cristãos, como Crisóstomo, Agostinho ou Jerônimo, tratavam de justificar o estilo simples e popular dos textos.

Nos séculos XVII e XVIII, houve várias polêmicas entre os hebraístas que explicavam o desvio do grego bíblico em relação ao clássico por causa da influência do hebraico. O estudo dos numerosos papiros encontrados no Egito permitiu reconhecer que a língua do Novo Testamento nada mais é que a língua koiné, falada na época helenística de Alexandre Magno até o final da Idade Antiga, com Justiniano (século VI). A língua koiné era falada pelo povo e também utilizada pelos escritores da época, como, por exemplo, Políbio, Estrabão, Filon, Josefo e Plutarco. Conserva a estrutura do dialeto ático, misturada a elementos jônicos e com empréstimos de outras línguas, como os semitismos e os latinismos.

            Nos semitismos e aramaísmos percebe-se a influência semítica, assim como na lexicografia e na semântica. O termo hypóstasis,  de Hebreus 11.1, encontra melhor explicação a partir do grego da Septuaginta e do equivalente hebraico tohelet (esperança confiante e paciente). Outros termos, como doxa (“glória”), diatheke (“aliança”) e psikhe (“alma”), recebem um significado novo em relação ao hebraico. Precisa-se considerar, outrossim, a experiência dos primeiros cristãos, cuja força criadora de linguagem se manifesta nos neologismos, como: antkeristos, diabolos e evangelismos, entre outros.

            A peculiaridade do grego bíblico explica-se, na atualidade, como fenômeno da tradução da Septuaginta, originando significados estranhos de alguns termos, neologismos, uso indiscriminado de termos poéticos ou de prosa. Sintetizando: os Evangelhos Sinóticos e os logia  de Jesus refletem um grego de tradução mais literária que literal. A influência da versão LXX, ao longo de todo o Novo Testamento, manifesta-se principalmente no evangelho de Lucas e em conceitos hebraicos das cartas paulinas, como os de justificação ou propiciação. O Apocalipse reflete sobretudo a conversação judaico-grega nas sinagogas.

            As descobertas arqueológicas mais importantes para o estudo do Novo Testamento foram as coleções de documentos de papiros do Egito. Na maioria desses documentos foram usados a língua e o alfabeto gregos. Os estudiosos perceberam que se tratava de uma língua grega idêntica à do Novo Testamento. Palavras e frases que ocorrem apenas uma ou duas vezes nos escritos neotestamentários aparecem repetidas vezes nos papiros. Por isso, as traduções da Bíblia feitas depois de 1895 diferem de outras mais antigas. Uma série de instruções do governo aos funcionários locais ordena-lhes a preparação da visita do soberano. O termo usado para visita é parousia, a mesma palavra usada pelos autores do Novo Testamento para indicar a segunda vinda de Cristo. Nessa expressão, os leitores terão reconhecido a imagem de uma visita real.

            Os papiros também revelam o ódio do povo contra o sistema de cobradores de impostos como os existentes na Palestina. Testemunham recenseamentos feitos de 14 em 14 anos, quando avisos públicos ordenavam aos cidadãos que voltassem às suas terras de origem, tal qual aconteceu com José e Maria, por ocasião do nascimento de Jesus. Entre os papiros também foram encontradas cópias de obras gregas famosas como a Ilíada, a Odisséia e as Histórias de Heródoto. Também foram recuperadas cópias dos livros do Antigo Testamento em grego (Septuaginta) e do Novo Testamento. Um minúsculo fragmento da página do evangelho de João foi copiada em torno do ano 130. É a peça mais antiga dos manuscritos do Novo Testamento a sobreviver.

            Dois dos mais importantes grupos de manuscritos do Novo Testamento são os papiros Bodmer (um dos quais data de fins do século II) e os papiros Chester Beatty (provavelmente do início do século III). Esses manuscritos só contêm partes do Novo Testamento. O Códice Sinaítico, do século IV, contém todo o Novo Testamento, e o Códice Vaticano  chega até Hebreus 9.13. Os dois manuscritos foram feitos provavelmente por copistas profissionais em Alexandria, no Egito. Poucas pessoas podiam possuir manuscritos das Escrituras Sagradas, por isso as igrejas cristãs geralmente possuíam alguns para uso de todos os seus membros.

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