A Formação do Canon

Toda religião revelada precisa do estabelecimento de um Cânon sagrado que identifique a revelação de Deus.

A fé judaico-cristã sentiu a necessidade do Cânon para conservar, preservar e observar essa revelação. A comunidade cristã foi expressando sua fé na adoção de determinados escritos como sagrados. Essas listas, em grego, denominavam-se Kânon. Na bibliografia grega, temos a  a idéia de “regra, norma, padrão”. Canonização é, pois, o processo pelo qual os livros da Bíblia se tornaram normativos para a comunidade que os acolheu. Canônicos são os livros aceitos pela comunidade cristã como sagrados, divinamente inspirados e fidedignos para a instrução dos fiéis.

Certamente, alguns critérios para estabelecer a canonicidade em relação aos livros do Antigo Testamento foram:

  1. Os autores sagrados registraram, de forma escrita, as revelações e mensagens que recebiam da parte de Deus, para que servissem de orientação aos seus descendentes (Êx 17.14; Nm 33;22; At 7.38 em diante).
  2. O reconhecimento pelos rabinos judeus da época de que os escritos eram inspirados por Deus. Na realidade, a Igreja canonizou o que já estava canonizado.
  3. Para a igreja primitiva determinar a canonicidade de um livro ele teria de ter sido escrito por um homem de Deus, ser autêntico, teria de conter a virtude que transformasse vidas, ser lido e aceito pelos rabinos.
  4. A confirmação pelo Espírito Santo, produzindo fé e obediência à Palavra de Deus.

 

Cânon judaico

O cânon hebraico é composto de 24 livros, dividido em três grupos: a lei (Torah), os profetas (Nebhim) e os escritos (Kethubim).

      A seguir, a ordem de aceitação dos livros como canônicos:

  • Torah. Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.
  • Nebhim. Josué, Juízes, Samuel, Reis, Isaías, Jeremias, Ezequiel e Os doze (os nossos profetas menores).
  • Kethubim. Salmos, Provérbios, Jó (poesia), Cantares, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Ester (os cinco rolos), Daniel, Esdras, Neemias e Crônicas.

 

Obs: “Os cinco rolos”. São chamados assim porque cada um deles foi escrito individualmente para ser lido nas festividades judaicas: Cantares na Páscoa, Rute no Pentecostes, Eclesiastes na festa dos Tabernáculos, Ester no Purim e Lamentações no aniversário da destruição de Jerusalém.

 

Talmude

Não é a Bíblia hebraica, mas, sim, o comentário que interpreta a Bíblia judaica. O Talmude é o conjunto da Mishná e da Guemará. A Mishná é o comentário das Escrituras (Velho Testamento Hebraico). A Guemará é o comentário da Mishna. Para os judeus, o Talmude é reconhecido como tendo a mesma autoridade da Bíblia hebraica. Mas para os cristãos ele não se reveste de nenhuma autoridade.

O cânon católico do Antigo Testamento é o mesmo da Septuaginta. Os livros estão divididos em quatro partes: Lei, História, Poesia e Profecia, mas com o acréscimo dos livros apócrifos. Assim, o cânon católico hebraico soma, ao todo, 46 livros:

  • Lei. Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.
  • Históricos. Josué, Juízes, Rute, 1 e 2Samuel, 1 e 2 Reis, 1 e 2 Crônicas ou Paralipômenos, Esdras, Neemias, Tobias, Judite, Ester, 1 e 2 Macabeus.
  • Poéticos. Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cantares, Sabedoria e Eclesiástico.
  • Proféticos. Isaías, Jeremias, Lamentações, Baruque, Ezequiel, Daniel, Amós, Oséias, Joel, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias.

 

Obs. Em algumas versões antigas, Samuel e Reis são apresentados como I, II, III e IV Reis e Esdras e Neemias, como I e II Esdras.

Cânon protestante

Sob o critério de linguagem e conteúdo, a Bíblia está dividida em duas partes principais: O Antigo Testamento e o Novo Testamento. O Antigo Testamento tem 39 livros,  e o Novo Testamento, 27, totalizando 66 livros. O cânon protestante do Antigo Testamento está distribuídos em 39 livros diferentes:

  • Lei. Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.
  • Históricos. Josué, Juízes, Rute, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis,  1 e 2 Crônicas, Esdras, Neemias e Ester.
  • Poéticos. Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares.
  • Proféticos. Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel, Daniel, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.
Analisando os termos

Por meio de um longo processo, em que o pressuposto básico foi a inspiração divina, o povo de Deus estabeleceu o seu Cânon sagrado. Nesse processo de escolha dos livros sagrados apareceram algumas expressões:

 Apócrifos. Livros que não foram recebidos pela comunidade cristã como inspirados. O termo em grego significa “escondido”, pois os livros se apresentavam como revelações secretas. Apócrifo, porém, não significa “condenado”, porque muitos deles eram leituras prediletas de judeus e cristãos. A carta de Judas, no Novo Testamento, chega a mencionar esses livros.

Os apócrifos não são aceitos como sagrados pelos protestantes e judeus. Esse termo significa “espúrio, oculto secreto”. Foram fixados nas edições católicas por determinação do Concílio de Trento (1545—1563).

Relacionamos, a seguir, alguns livros apócrifos:

  • Tobias, Judite, Sabedoria, Baruc, Ester 10.4–16.24, História de Suzana, Bel e o Dragão, os três jovens na fornalha (que são acréscimos aos livros de Esdras e de Éster), Eclesiástico, I e II Macabeus, Oração de Manasses, III e IV Esdras, entre outros.

Embora raramente possam ser encontrados, existem também os livros apócrifos do Novo Testamento, que são, entre outros, os seguintes:

  • Evangelho segundo os hebreus, Os atos de Pilatos, Apocalipse de Pedro, Evangelho de Tomé, Os atos de Paulo, Evangelho aos doze apóstolos e Terceira epístola aos coríntios.

 Resumo das heresias nos apócrifos

Tobias (2000 a.C.)

É uma história novelística sobre a bondade de Tobiel (pai de Tobias) e alguns milagres preparados pelo anjo Rafael.

Suas heresias:

  • A justificação pelas obras — 4.7-11; 12.8.
  • Mediação dos santos — 12.12.
  • Superstições — 6.5,7-9,19.
  • Um anjo engana Tobias e o ensina a mentir —  5.16-19.

 Judite (150 a.C.)

História de uma heroína viúva e formosa que salva sua cidade enganando o inimigo e, em seguida, corta sua cabeça. Sua grande heresia é a própria história, na qual os fins justificam os meios.

Baruque (100 A.D.)

Heresia. Traz, entre outras coisas, a intercessão pelos mortos — 3.4.

 Eclesiástico (180 a.C.)

É muito semelhante ao livro de Provérbios, não fosse as tantas heresias. A saber:

  • Justificação pelas obras — 3.33-34.
  • Trato cruel aos escravos —  33.26,30; 42.1,5.
  • Incentiva o ódio aos samaritanos — 50.27,28.

 Sabedoria de Salomão (40 A.D.)

Livro escrito com a finalidade exclusiva de lutar contra a incredulidade e a idolatria do epicurismo (filosofia grega na Era Cristã).

Suas heresias:

  • O corpo como prisão da alma — 9.15.
  • Doutrina estranha sobre a origem e o destino da alma — 8.19,20.
  • Salvação pela sabedoria — 9.19.

 I Macabeus (100 a.C.)

Descreve a história de três irmãos da família “macabeus” que, no chamado período interbíblico (400 a.C. — 3 A.D.), lutam contra os inimigos dos judeus visando a preservação do seu povo e da terra.

II Macabeus (100 a.C.)

Não se trata da continuação de I Macabeus. São, no entanto, narrativas paralelas, cheias de lendas e prodígios de Judas Macabeu.

            Suas heresias:

  • A oração pelos mortos — 12.44-46.
  • Culto e missa pelos mortos — 12.43
  • O próprio autor não se julga inspirado — 2.25-27; 15.38-40.
  • Intercessão pelos santos — 7.28; 15.14.
Adições ao livro de Daniel

No capítulo 13, é contada a “A história de Suzana”. Segundo esta lenda, Daniel salva Suzana num julgamento fictício baseado em falsos testemunhos.

O capítulo 14 conta-nos a história de  Bel e o Dragão. Contém, ainda, histórias sobre a necessidade da idolatria.

No capítulo 3.24-90 está “O cântico dos três jovens na fornalha”.

 Deuterocanônicos

Designa os livros aceitos pelos católicos que não foram incluídos no Cânon escriturístico da comunidade judaica. São sete livros mais alguns fragmentos que se encontram na tradução dos LXX. Os cristãos os aceitam em segunda instância, pois foram importantes para a primeira geração de teólogos cristãos.

Pseudepigráfico

É usado pelos protestantes para indicar livros escritos por pessoas inspiradas. Esses livros, no entanto, não estão nos cânones judaico, católico e  protestante. Esse termo é inadequado para ser usado em matéria de canonicidade, pois atribui o livro a outro autor que não o escreveu, o que aconteceu com alguns livros canônicos.

Resumindo: pseudepígrafos são os livros religiosos e apocalípticos, escritos com a pretensão de serem sagrados, porém, nem discutidos foram, sendo rejeitados por todos (judeus, católicos e protestantes).

Alguns livros pseudepígrafos:

  • Apocalipse de Sofonias, de Zacarias, de Esdras, Enoque, Os doze patriarcas, entre outros.

Existe uma hipótese de que havia dois cânones hebraicos: um breve, palestinense, fixado em Yamnia (cidade a oeste de Jerusalém, perto do Mediterrâneo, onde havia uma escola de rabinos) e outro mais amplo, de Alexandria. Não foram os judeus de Alexandria, mas a Igreja Cristã que, manejando a versão dos LXX, fixou o cânon exclusivo. Antes do Concílio de Trento, houve uma sucessão de decisões sinodais acerca da canonicidade da Bíblia.

Os concílios locais de Hipona (393), Cartaginense III (397) e de Cartago (419) aprovaram as listas dos livros do Antigo e do Novo Testamentos, que coincidiram com as de Trento. Foi durante o Concilio de Trento que o decreto De Canonicis Scripturis enumerou 45 livros canônicos do Antigo Testamento e 27 do Novo Testamento. Esse Concílio aceitou definitivamente os livros deuterocanônicos, em oposição aos protestantes, que optaram pelo cânon hebraico.

Na tradução efetuada por Lutero, em 1534, ele agrupou os livros deuterocanônicos no final da Bíblia, chamando-os de apócrifos e afirmando que sua leitura era útil e boa. Assim também ocorreu com a Bíblia de Zurich, traduzida por Zwínglio e outros (1 527/29). A Igreja Reformada e a Bíblia de Wicllif (1382) excluíam das Escrituras os deuterocanônicos. A King James Version (1611) imprimiu-os entre os dois Testamentos. As igrejas orientais usavam apenas o cânon hebraico, mas, sob a influência da versão dos LXX, começaram a incluir os deuterocanônicos.

Entre os cristãos coptos, cristãos etíopes e alguns cristãos sírios, tende-se a admitir os apócrifos e os deuterocanônicos. Na Rússia, no século XIX, os teólogos ortodoxos excluíram os deuterocanônicos, que aparecem numa Bíblia russa publicada em 1956.

Com a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto (1947), foram esclarecidos alguns dados. De todos os livros incluídos na Bíblia hebraica oficial, somente Ester falta nos rolos e fragmentos de Qumrán. Isso se deve ao fato de não conter o nome de Deus e de acentuar a festa do Purim, uma vez que a comunidade de Qumrán, a dos essênios, observava rigorosamente o calendário hebraico. Os essênios também conservaram cópias dos livros deuterocanônicos, como a Carta de Jeremias (de Baruque), Tobias, Eclesiástico, Jubileus, Henoque e diversos documentos da seita.

A Formação do Canon

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para o topo